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WANDERLUST
Exposição Colectiva

Arturo Comas
Francisco Correia
João Motta Guedes
Jon Gorospe
Martim Brion
Susana Rocha
Teresa Murta


ARTES - MOTA GALIZA (Porto)
31.03 __ 29.04.2023
© Jon Gorospe

Wanderlust (do alemão wandern:'caminhar', 'vagar' + Lust: 'desejo'; em português, "desejo de viajar") é um termo que descreve um forte desejo de viajar, de explorar o mundo, de ir a qualquer lugar, em uma caminhada que possa levar ao desconhecido, a algo novo. Não se trata de simples vontade, mas um desejo incontrolável de ir, de seguir rumo ao desconhecido, em qualquer direção, ou a algum lugar onde se possa encontrar algo novo. 

Pode ser descrito como uma espécie de saudosismo ou saudade lugares imaginados como idílicos ou fantasiosos, onde nunca se esteve antes. A um nível mais profundo, pode ser entendido como uma busca de natureza filosófica ou religiosa, que impele o individuo como uma locomotiva que não para até que tenha alcançado sua "estação", que pode ser um lugar geográfico, uma descoberta filosófica ou uma iluminação religiosa. 

 

Esta exposição - e a primeira colectiva dos sete artistas no Porto, expressa o princípio inclusivo da necessidade de deambulação do artista e da obra que surge de uma privação. “Wanderlust” apresenta o trabalho destes artistas, que apesar de terem a sua origem em Portugal e em Espanha, exercem a sua práctica artística entre Lisboa, Sevilha, Bruxelas, Oslo, Munique e Berlim. Juntos, apresentam trabalhos que se diferenciam em processo, médium, técnica, linguagem e conceito, embora em alguns dos casos quase tangenciais, todos executam e criam imagens complementares sobre um mesmo tema.

 

Existe uma certa nostalgia sobre o que se entende pelo esforço exigido para que suceda um movimento. 

Independentemente do ponto de partida, qualquer que seja o sentido - vago ou interpretativo, remete-nos aos estádios de vida, sejam de inocência ou puberdade, maturidade ou de passagem ou fim de vida (uma projeção), todos estão capacitados de cargas e intensidades distintas, mas em qualquer um dos casos, um exercício emocional e mental resultante de um enorme desejo. 

 

Estará o sonho também implícito nesta bagagem, pois é ele que nos dá a instrução para o primeiro, segundo ou terceiro passo que nos posiciona no trilho de uma viagem, seja lá, o que isso for.

 

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Desejo. Qualquer princípio de viagem, começa mentalmente.

 

Comecemos então, por uma cadeira que permanece estática no meio da sala (“Sem título, 01B”), que testa os limites do corpo e as possibilidades da mente. Arturo Comas, introduz a fragilidade do equilíbrio - busca intensiva do ser humano, com uma subtil ligação ao cotidiano através de duas latas de cerveja, traço e referência de um hábito de ócio. A dualidade entre a letargia e a inquietude do impulso. O tempo, as relações, a identidade e a busca do engenho para forçar um movimento.

 

Em polifonia, "Just Keep Walking (if you can)” remete-nos para uma frase popular ‘ter os pés bem assentes na terra’, como paradigma da evolução da espécie humana - o biólogo David Carrier sustenta que manter os calcanhares no chão permite ter mais força de balanço, uma vantagem que João Motta Guedes alicia com a inclusão de tiras de havaianas (associadas à leveza da época estival), em dois blocos de granito. Em simultâneo, o artista explora a viagem atmosférica de uma cândida simplicidade, onde as múltiplas formalidades de uma bolha de sabão, nos embalam numa melodia de silêncio, "Freedom Song”.

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Ainda em silêncio, e numa meditação sobre o tempo e o espaço, as duas obras fotográficas “De Magnete (black) (white)”, estabelecem a interdependência pictórica ‘claro escuro’ que a genialidade da natureza nos brinda na sua incomensurável paisagem. Jon Gorospe delimita a imensidão de um universo que promove a procura de um cenário como ‘sítio’ onde o individuo deve ocupar. A ávida busca do lugar comum e a perturbante insatisfação do encontro. 

 

Ao fundo, um conjunto de pinturas que reflectem ensejos, pausas, sentido e memória subconsciente.

“Maintenance” e “Escaldo” dialogam por antagonismo, num género de flutuação de voo picado na direção de uma realidade turbulenta e onde Teresa Murta, impõe uma imersão de liberdade interpretativa. 

“Cold magnete”, é uma vastidão de transmutações de possibilidades e de paradigmas na construção de uma identidade, uma obra inconclusa e infinita.

 

A ilusão visual de “Cube 5”, como medida e ritmo de um tempo de múltiplas variações em que a cada face descoberta, apresenta uma nova perspectiva. Martim Brion combina a geometria com o axioma de um espaço de criatividade atemporal, e de que forma o prisma de multiplicidade se ordena em cadencia.

 

Sendo a passagem cinematográfica incontornável num cenário fantasioso de expedição, encaramos a lentidão poética de Susana Rocha em “The wind in my hair will not take me there”. A disputa entre o divino e o efémero como numa cena de Win Wenders, em que de uma forma romântica somos meros espectadores na expectativa de um movimento. Susana Rocha no segundo trabalho “Against the odds”, corporifica a incessante máquina da determinação humana. A rivalidade do significado dos elementos que induzem ao ímpeto do salto no vazio e à incontornável capacidade de resistir, o conforto da prostração, a dor da paralisação do tempo e a origem da reticência. 

 

Numa viagem, o veículo é imperativo assim como também, o tempo, origem e destino. Francisco Correia não deixa margem para dúvidas sobre estas condições, quando nos coloca numa viagem imaginária duma estrada imensurável de encontro ao ocaso. “Temps théorique (Météorique)” transporta – inclusive, a brisa da distância percorrida. Quando levantamos o olhar para "Temps théorique (retrovisor)”, a fugacidade do percurso evoca a recordação do que não experimentámos e em simultâneo, da história que nos pertence, sem mesmo ter estado lá. Como um alerta, "Temps théorique (letreiro)” reclama o paralelismo que existe entre a relatividade e a teoria, que numa fração de segundo nos afastam da ordem de um caminho – mesmo consciente da efemeridade, mas que não nos esgota do desejo de alcançar um destino.

 

Na sala escura, Motta Guedes apresenta aquela que poderia ser a peça que culmina a exposição, ou será apenas o princípio? "Untitled (How small a thought it takes - after Wittgenstein and Steve Reich)”.

Qualquer interpretação metafórica é possível, e até mesmo a poética de um novo silêncio, curto, introspectivo... e sem dúvida momentâneo. A Vida - assim como o sonho, é um sopro ao qual não ficamos indiferentes nem mesmo saciados. Fica-nos aquele sabor de boca, ou fragrância.

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Mercedes Cerón

Março, 2023

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