NAVE galeria
PARALLAX 
Susana Rocha

Galeria de Arte Moderna
Sociedade Nacional de Belas Artes
07.09 __ 15.10.2022
PHOTO Bruno Lopes

Paralaxe: “Diferença na posição aparente de um objeto em relação a um plano de fundo,

tal como visto por observadores em locais distintos ou por um observador em movimento”

 

 

PARALLAX é um projeto que explora livremente os “enganos da visão”, através de objetos pictóricos e escultóricos que obrigam à movimentação do espectador, transpondo a ideia de distorção e perspetiva visual para um universo mais vasto, metáfora da experiência humana e dos enganos que dela fazem parte.

 

Não procurando a mera constatação ou reprodução efetiva de desordens visuais, as obras que compõe PARALLAX procuram questionar o que assumimos como certo, observável, fiável, ou estável… na certeza de que essa segurança apenas advém de um estatismo incompatível com o natural desenrolar do mundo e da vida, onde a entropia é a tendência evidente.

 

Explorando os desvios e os reveses, mas também as descobertas e o encantamento do olhar, a exposição propõe um entendimento desgarrado da necessidade humana de seguir em frente; de descobrir novos posicionamentos prescindindo do conforto da previsibilidade.

 

A forma, reduto racional da prática artística, afirma-se desafiadora aliando-se à cor enquanto provocação dos sentidos. Ainda assim, as obras são apontamentos de gestos mínimos, na procura de ressonância junto da retina de quem as observa - olhar também evocado como referência formal. 

 

Contrariando um formalismo estreito, procuro a poética dos conceitos e a possibilidade de extrapolação, que o carácter de cada título encerra.

Susana Rocha

A autora Susana Rocha, artista se preferirem, intenta criar um corpus de intenção e realização, cujos resultados apresentados – as suas Obras – são meditadas em profundidade, trabalhadas a partir da formulação de um conceito. 

Os conceitos que trabalha escapam a qualquer mimetismo do real, mas nem por isso deixam de o referir, ainda que de modo oblíquo, digamos assim, solicitando ao espectador a sua particular atenção.

Este diálogo inter-subjectivo surge mesmo em peças da autora de linear desenho, como as que integram a curadoria que apresento na Bienal de Cerveira na sua mais recente edição (2022). As peças em questão recortam o espaço adjacente, tanto quanto o definem.

Em determinado momento de uma sua entrevista, a artista refere Heidegger, pelo que cito de Mafalda de Faria Blanc, no seu fundamentado “Estudos sobre Heidegger”, página 286, editora Guerra & Paz, 2018 : “Pode assim dizer-se que o mundo, como horizonte de sentido, tem a sua primeira expressão e implantação na configuração poético-pensante das línguas”.

Creio ser exactamente este o seu modo de proceder: criar uma novi-língua. Em PARALLAX, a sua exposição individual na Galeria de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas Artes, a autora explora o conceito/definição do termo: “diferença na posição aparente de um objecto em relação a um plano de fundo, tal como visto por observadores em locais distintos ou por um observador em movimento”.

As peças circundantes, no seu relativizado silêncio, solicitam a participação activa do não-exactamente espectador, em cumplicidade  conceptual através de fenómenos de visão que dão a medida da instabilidade do Mundo e da necessidade da sua permanente reformulação.

 

 

Jaime Silva