PÃO E FIO
Exposição individual de Sonia Navarro
curadoria de Susana González
29.10 __ 28.11.2026
© Bruno Lopes
Sociedade Nacional de Belas Artes
Lisboa (PT)
Pão e fio reúne obras de distintos períodos da percurso de Sonia Navarro, cuja prática parte de materiais e tradições têxteis enraizados historicamente ao trabalho doméstico, às economias de subsistência e aos cuidados.
O pão e o fio, que dão o título à exposição, condensam duas necessidades essenciais — alimentar e proteger — e evocam formas de trabalho, especialmente feminino, tradicionalmente invisibilizadas e pouco reconhecidas. Através da costura, do bordado e da reutilização de materiais, Navarro reivindica estes saberes e situa-os no centro da prática artística contemporânea.
A sua obra está profundamente ligada a uma genealogia familiar: a costura atravessa três gerações de mulheres do seu meio, as suas avós, a sua mãe Teresa, até à própria artista. Esta transmissão de conhecimentos estende-se também à colaboração com costureiras, bordadeiras e artesãs, questionando a ideia de autoria individual e valorizando formas de produção partilhada.
A exposição agrega materiais provenientes de tradições artesanais e rurais mediterrânicas, como jarapas, esparto, lã, linho, feltro e borracha, alguns deles recuperados, reutilizados ou vinculados a ofícios em transformação ou em risco de desaparecimento. Navarro desloca estes materiais da sua função quotidiana para o âmbito escultórico, sem extinguir a sua memória nem a sua dimensão utilitária.
O fazer manual ocupa um lugar central: cortar, montar, bordar, tensionar, dobrar e coser são ações repetitivas que introduzem na obra uma temporalidade baseada na atenção e na persistência, face à lógica da produção industrial.
Pão e fio propõe, em definitivo, uma reflexão sobre o valor daquilo que tradicionalmente ficou fora dos sistemas de reconhecimento económico e cultural: os saberes transmitidos entre gerações, o trabalho das mãos, a reparação, a reutilização e as formas de cuidado que sustentam a vida. Navarro evoca estes gestos evidenciando a cultura material como fundamental para compreender a nossa história social e afetiva.
Susana González, outubro 2025


