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O BANQUETE (1)
exposição colectiva

João Campolargo Teixeira
Beatriz Capitulé
Sebastião Castelo Lopes
André Filipe Rodrigues
Maria Inês Gomes
João Marques
Maria Máximo
Beatriz Neto
Francisco Pinto de Almeida
Leonardo Quintaneiro
André Vaz

Curadoria: Mercedes Cerón
Coordenação: Catarina Pedroso





7.05 __  26.06.2026
© Bruno Lopes



 

 

O Banquete (1)

 

 

Há, no gesto de reunir, uma dimensão fundadora da experiência humana: a partilha.

 

O Banquete(1) propõe-se como um dispositivo expositivo que convoca essa dimensão, organizando-se em torno de uma mesa corrida — contínua, horizontal, insistente — onde as obras se dispõem como elementos de um campo comum.

 

Este gesto não é apenas formal; é estrutural. A mesa, enquanto suporte e metáfora, ativa uma condição de proximidade e de circulação, recusando a ideia de obra isolada em favor de uma ecologia de relações. Tal como num banquete, o que está em jogo não é apenas a apresentação, mas a participação: pois o banquete não é apenas encontro, mas também exuberância, entrega e suspensão provisória da medida, fazendo do olhar um ato situado, implicado, partilhado.

 

Os onze artistas aqui reunidos foram selecionados a partir de uma convocatória que reuniu 96 propostas, revelando um panorama alargado de práticas emergentes e de modos de pensar e fazer contemporâneos. As obras que apresentam— abrangem a escultura, instalação, desenho e fotografia — configuram um conjunto heterogéneo que atravessa diferentes materialidades e modos de dar forma ao sensível.

 

O processo de selecção não procurou uma unidade estilística ou temática, mas antes uma tensão produtiva entre diferenças unidas pela qualidade artística — um conjunto de vozes capazes de sustentar, em simultâneo, autonomia e permeabilidade.

 

O dispositivo da mesa corrige — ou desvia — a lógica tradicional da exposição como sucessão linear ou compartimentada. Ao inscrever todas as obras num mesmo plano, ele propõe uma leitura não categórica, onde o percurso não é prescrito, mas construído pelo visitante.

A proximidade física entre as peças intensifica a possibilidade de propagação: formas, gestos e conceitos ecoam-se, fazendo emergir continuidade inesperada ou rutura abrupta.

 

Neste sentido, a exposição opera como um campo expandido de relações, onde o significado não reside exclusivamente em cada obra, mas emerge do intervalo, da vizinhança, do entre.

 

O título da exposição remete diretamente para o diálogo platónico, onde diferentes discursos sobre o amor se entrelaçam, compondo uma reflexão plural sobre aquilo que move o desejo e orienta a existência.

Nesse contexto, o amor surge como força mediadora entre o sensível e o inteligível, entre o humano e o divino — uma energia que impulsiona o movimento em direção ao Belo.

É também nesse texto que se afirma a ideia de que os seres humanos são dotados de fecundidade, não apenas no corpo, mas no espírito. Essa fecundidade intelectual traduz-se na capacidade de gerar formas, ideias, imagens — de produzir o Belo enquanto manifestação de um pensamento sensível.

 

 

Importa, contudo, reconhecer que a natureza da Beleza escapa à sua própria definição.

 

O Belo não se deixa circunscrever por categorias estáveis nem reduzir a uma lógica demonstrativa. Trata-se de uma experiência inefável, que resiste à linguagem e excede qualquer tentativa de explicação discursiva. Mais do que objeto de conhecimento, o Belo é uma forma de apreensão intuitiva — uma intensidade que se manifesta para além da observação empírica e da lógica conceptual. Não se explica: impõe-se como experiência, como reconhecimento imediato, ainda que difícil de nomear.

 

Neste contexto, as obras reunidas em O Banquete(1) podem ser entendidas como manifestações dessa fecundidade do espírito. Cada uma delas inscreve um gesto singular — uma tentativa de dar forma ao pensamento, de materializar uma intuição, de tornar visível ou sensível algo que, por natureza, escapa. No entanto, ao serem colocadas em relação, essas singularidades deixam de operar de forma autónoma, passando a integrar um tecido mais vasto de significado. O que emerge não é uma soma de partes, mas um sistema instável e aberto, onde o Belo se produz na relação: entre obras, entre artistas, entre estas e o corpo de quem as atravessa.

 

A exposição propõe, assim, uma reconfiguração da posição de quem vê: não já observador exterior, mas presença inscrita no campo relacional da mostra. Ao aproximar-se da mesa, o visitante é incluído numa experiência que é simultaneamente estética e relacional. Um exercício de atenção prolongada, de escuta visual, de disponibilidade para o encontro — com o outro, com o múltiplo, com o indeterminado.

 

Mais do que apresentar um conjunto de obras, O Banquete(1) figura-se como um espaço de presença partilhada e de partilha sensível. Um lugar onde o tempo se adensa, onde o olhar se demora, e onde o pensamento — à semelhança do que propunha Platão — se abre à possibilidade de gerar, ainda que provisoriamente, formas de Beleza.

 

 

Mercedes Cerón, Abril 2026

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