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MIDLIFE CRISIS
Francisco Correia
exposição individual


22.02 __ 5.04.2024

© Bruno Lopes

 

 

"Midlife Crisis” nasce da dificuldade em conciliar a matemática com a vida. A expressão (em português, crise de meia idade), foi cunhada pelo psicanalista Elliot Jacques nos anos 1960, após notar que vários pacientes de idades semelhantes apresentavam sintomas depressivos e um profundo desagrado com o desenrolar das suas vidas. Apesar dos números não serem exactos, é relativamente consensual que o fenómeno acontece entre os 40 e os 60 anos, tratando-se de um período de análise retrospectiva no qual se é assolado pela nostalgia, desejo de rejuvenescência, e um desencanto generalizado com o presente, entendido como sério, aborrecido ou reles. É evidente que a crise de meia idade é sobretudo uma reação de choque perante a constatação e consequente recusa da finitude humana. Segundo um diagrama que encontrei na internet alguns dos sintomas são a obsessão com a linha do cabelo, com o propósito da vida, sentir-se atormentado pelo futuro, ou o apelo por carros desportivos.

 

            No entanto, vale a pena notar que a crise de meia idade contém em si um positivismo disfarçado. Se levadas tão a sério as letras como os números, o meio da existência humana situar-se-ia, então, entre os 40 e os 60 anos. Trata-se de publicidade enganosa, que pretende convencer pessoas que provavelmente já vão a dois terços da vida, que ainda estão a tempo de decidir como querem viver a segunda metade. Talvez por isso as marcas tentem repetidamente vender-lhes metáforas de infinito e imortalidade, quer seja através de carros, de roupa, perfumes ou tecnologia.

 

            A representação do universo é uma das formas mais comuns de ilustrar o conceito de infinito. Para a percepção humana o cosmos é em grande parte um lugar abstrato e intangível, onde as convenções sociais perdem a utilidade, e as unidades de medida de espaço-tempo mais familiares se tornam insignificantes. É por isso um ponto de grande proximidade entre a realidade e a ficção. Se por um lado as teorias científicas nos ajudam a comprovar a existência de outros corpos celestes, a incapacidade de os experienciar, até observar, remete o cosmos para o domínio da fantasia. Daí que mais rapidamente temamos a ideia da nossa própria extinção, do que a extinção do planeta ou até do universo. Se não conseguimos determinar a existência de vida extraterrestre no meio do infinito em que nos situamos, não é de admirar que aos 50 anos nos contentemos com um carro desportivo e em manter a linha do cabelo.

 

 

Francisco Correia

Fevereiro, 2024

 

 

 

Ao meu pai, que ao passar pela minha idade não se apercebeu que ia também a meio da vida.

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