NAVE galeria
MATTER INFORMS FORM
LANGUAGE INFORMS THOUGHT
Martim Brion


07.07 __ 02.09.2022

PHOTO Bruno Lopes

O PROCESSO DA ARTE 

O trabalho de Martim Brion apresenta-se como que isento de toda a subjectividade. Partimos de um conjunto de inscrições que entendemos como o eixo do seu pensamento e acção artística para analisarmos depois o lugar da escultura e da pintura no seu trabalho.

 

Os textos, referindo-se a obras de arte que não vemos são enquadrados por molduras simples e alinham-se nas paredes como tabelas descritivas de uma realidade que nos é negada, pois essas frases falam-nos de objectos, de pinturas ou de desenhos (por vezes mesmo de fotografias) que não vemos. Lidas sem atenção, cada uma destas “legendas” parece poder ser a descrição de uma peça existente num museu ou galeria ou um conjunto de minuciosas instruções para a produção e venda dessas mesmas obras. Tais frases podem referir-se a obras alheias, podem reproduzir ou forjar páginas de reflexões do próprio artista em busca de várias opções para construir as suas peças, podem ser, simplesmente, criando puras imagens mentais, uma forma de estimular a reflexão intelectual do leitor sobre a ambiguidade da percepção das formas no espaço. 

Esta parte do seu trabalho gera ou é gerado por fontes suplementares, mas não menos significativas, de estranhamento e distanciamento. Primeiro, o seu estatuto: são textos cujas imagens (por meio de um investimento de design gráfico) assume uma inusitada dimensão visual; de tal modo que podemos vê-las como arte e não apenas na sua dimensão verbal. Depois, a língua que estão escritas as frases: o inglês, obriga os públicos de outras línguas a um esforço de tradução. Mas, principalmente, importa notar que o tipo de conteúdos transmitidos surge como reflexo e tributo crítico ao Conceptualismo. Muito devedor das derivas posteriores a Marcel Duchamp (artista que colocava a força da obra de arte na ideia que dela emanava ou lhe era associada pelo discurso verbal) o Conceptualismo acabou por perverter esse desígnio e por ficar mais próximo da forma do que da ideia. Uma das características mais marcantes desta linha de criação (que teve o seu minuto alto na década de 1970) foi o progressivo afastamento do artista do trabalho manual na realização das suas obras, sendo substituído por instruções de construção dadas a outro ou outros que, cumprindo-as escrupulosamente, acabavam por realizar as obras sem as poder assinar, na medida em que eram apenas intérpretes de uma ideia alheia.

 

Já as esculturas da exposição parecem poder ter derivado da própria matéria mental de que se fazem as obras anteriores. Não será contraditório nem paradoxal dizer que a matéria-primeira dessas peças tridimensionais são os textos (escritos, disponíveis para terem sido escritos e emoldurados) e só depois são os tubos de ferro dobrado e pintado com a mesma alacridade com que se “pintam” as “Process Series-Descriptions”. Confirmando os laços entre as duas disciplinas que temos vindo a ver na sua obra, as esculturas parecem estabelecer com o espectador a mesma relação de distância irónica que os textos; e, ao mesmo tempo, acentuam a dimensão de jogo já presente: jogo de perícia linguística na capacidade descritiva, jogo de construção (a haver) de uma peça tridimensional, jogo de opções e disposições cromáticas e formais…

 

Apesar das numerosas fissuras de subjectividade assinaladas no edifício dos dois conjuntos apresentados o trabalho de Martim Brion aparece, realmente, como um jogo. Esse jogo é feito, não contra o mundo natural, pois Martim Brion usa os elementos matriciais desse mundo (os padrões de cor, as geometrias puras e as combinatórias desses elementos), mas sem ter em conta a sua variabilidade infinita (ou seja, a “impureza” orgânica da natureza). Martim Brion balança assim entre a pureza idealizada dos meios que elege como elementos do seu vocabulário e tem ao seu dispor e a instabilidade permanente proporcionada pelas possibilidades de associação.

 

 

 

João Pinharanda, Maio 2022

Excerto do texto da exposição “Ponto Contraponto” que esteve patente no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha.