GREENHOUSE SUNDAY
Arturo Comas
26.09 __ 24.10.2025
© Arturo Comas
super bien! Berlin
Berlim (DE)
GREENHOUSE SUNDAY
A respiração abranda quando nos aproximamos do pátio onde se localiza a super bien! Berlin.
A nossa visão abraça a envolvente e é inevitável um segundo olhar minucioso, maravilhado de serenidade silenciosa, mas também, de incoerência sobre a ambivalência inusitada. Uma estrutura de vidro enorme e de brutal sinceridade que não esconde o que se expõe no seu interior, uma montra sem filtro, referências ou presunções. A naturalidade exposta à transparência do olhar.
Observando a estrutura da super bien! é obvia a sua finalidade como uma estufa de horticultura e talvez por isso, a sua função actual - direcionada para exposições de arte contemporânea, a torna tão especial e extraordinária. O princípio do desenho e da construção é atingir uma funcionalidade, mas também há algo de intrínseco na atribuição de uma forma. Regras, normas, condicionantes moldam a volumetria e a materialização de um espaço. É quase uma evidência universal, que tudo tem (ou deveria de ter) uma função, um propósito e sobretudo o dever de ser explicável como tal.
Repentinamente recordo as conversas tidas com o Arturo Comas sobre a sua viagem ao Japão. O seu encantamento sobre a cultura e a meditação contemplativa - com a qual o artista desenvolve uma empática identificação, onde investe um interesse especial e permanente através da sua prática artística no desenvolvimento de conceitos com alguma complexidade sem uma conexão lógica produtiva.
Com a instalação de um karesansui (Jardim Zen) dentro da super bien! - além do sentido intuitivo de resgate da funcionalidade original da estufa, Comas convida-nos à contemplação, a parar e refluir, reinventar e re-conhecer. Sem esta dimensão contemplativa estamos sujeitos à cascata de hiperatividade produtiva descontrolada.
Os objectos escultóricos relacionados com a actividade da jardinagem e estranhamente implantados no campo raso de areia ondulante, recordam-nos a inexistência de plantas. E surpreendentemente entramos num transe de indolência e ócio.
O próprio título da exposição Greenhouse Sunday nos recorda o dia dedicado ao ócio (na agenda, o domingo), uma espécie de pausa catatónica numa sociedade onde a horticultura se qualifica como uma catarse.
Esta condição letárgica – tão pouco implementada na sociedade do seculo XXI, gera outra inquietação: a utilidade da contemplação. O artista partilha dos princípios da reflexão de Nuccio Ordine, e da importância dos aparentes conhecimentos que não produzem benefícios materiais. O cilindro esmagador do utilitarismo que derruba o alimento do espírito. A sabedoria nos lugares inesperados e a beleza das coisas que não geram lucro imediato.
Na instalação Greenhouse Sunday de Arturo Comas, encontramos uma subtil e ampla combinação de conceitos encarcerados numa estrutura de vidro. O desejo sobre o inacessível - chegarmos perto da instalação, a frustração da impossibilidade, a agitação da quietude e também, a sua mordacidade. Esta montra projecta-se como a imagem de um pequeno frasco de vidro de algo muito comovente que seriamos capazes de guardar como uma relíquia, um tesouro.
Um amuleto para o qual olharíamos em momentos de desespero, de incompreensão e até porque «se não se compreende a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, não se compreende a arte».
Setembro de 2025
Mercedes Cerón






















