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ABWESENHEIT
exposição comemorativa de
Chema Alvargonzalez

curadoria de Mercedes Cerón


10 __ 26.07.2026



Project Space GlogauAIR, Berlim (DE)

© Giulia Gr cortesia da GlogauAir

“Close your eyes and observe everything you can see in that moment.

This is your ability to use the world of imagination.”

Chema Alvargonzalez

 

 

A exposição ABWESENHEIT toma o título da palavra alemã para “ausência”, um conceito que atravessa tanto a obra como a memória de Chema Alvargonzalez. A exposição é pensada como uma homenagem e, simultaneamente, uma comemoração, assinalando o vigésimo aniversário da GlogauAIR, o projeto de residências artísticas fundado pelo artista no coração de Kreuzberg, em Berlim.

 

O caráter do edifício que acolhe a exposição — antiga residência e atelier do artista durante a sua permanência em Berlim, e atual espaço de residências artísticas — constitui um enquadramento fundamental para compreender um dos temas centrais que estruturam esta proposta: a manifestação do tempo enquanto processo histórico e enquanto dimensão da experiência pessoal. Aqui, o espaço não é um mero contentor, mas sim um corpo atravessado por camadas de memória, por presenças passadas, ausências persistentes e um território aberto à imaginação.

 

A ausência, enquanto resultado do desaparecimento, manifesta-se em múltiplos níveis. Torna-se visível nas marcas físicas do edifício, no deambular pelos degraus da magnífica escadaria interior, nas árvores do jardim que surgem pelas janelas como testemunhas silenciosas. Como de olhos fechados, estes elementos refletem a distância existente entre o interior e o exterior, entre a realidade material e a sua projeção intelectual. Neste intervalo, a perceção torna-se incerta e a memória, fragmentária.

 

A exposição propõe um percurso através de vazios: vazios de memória, de narrativa, de presença. O desconhecido, o impercetível e o esquecido emergem não apenas como carências, mas como zonas ativas de significado. Neste propósito, ABWESENHEIT não se limita a recordar, mas ativa uma experiência na qual o visitante se confronta com aquilo que não pode ser plenamente apreendido.

 

As obras apresentadas — instalação, fotografia, escultura, luz e som — dialogam com este enquadramento conceptual a partir de uma pluralidade de abordagens. Entre elas, destacam-se as emblemáticas malas do artista, objetos recorrentes na sua prática que funcionam como dispositivos de trânsito, contentores de histórias e metáforas da mudança. Nesta exposição, estas peças adquirem uma dimensão adicional: evocam não apenas a viagem física, mas também a passagem entre presença e ausência, entre o vivido e o recordado.

 

Também são apresentadas pela primeira vez uma seleção de documentação de trabalho do artista, que introduz uma dimensão íntima no percurso expositivo. Estes materiais não procuram completar uma biografia, mas sim sublinhar as suas interrupções, os seus silêncios e as suas zonas opacas. Na sua fragmentação, reforçam a ideia de que toda a memória é atravessada por lacunas e reconstruções.

 

A dimensão sonora e luminosa da exposição amplifica esta experiência, gerando atmosferas que oscilam entre o tangível e o evanescente. A luz não revela por completo; o som não narra de forma linear. Ambos operam como presenças ambíguas que acompanham o visitante num espaço onde o tempo parece suspenso ou, mais precisamente, estratificado.

 

No contexto dos vinte anos da GlogauAIR, ABWESENHEIT é uma reflexão sobre a continuidade e a transformação. O projeto de residências, concebido como um lugar de encontro e de produção, foi testemunha de inúmeras trajetórias artísticas. Hoje, esse fluxo de presenças temporárias entrelaça-se com a ausência permanente do seu fundador, gerando uma tensão que atravessa todo o espaço.

 

A exposição não apenas comemora, mas reativa. Em vez de encerrar uma memória, abre-a. Em vez de fixar um legado, coloca-o em movimento. ABWESENHEIT convida-nos a habitar esse intervalo onde o passado e o presente se cruzam, onde o visível convive com o oculto e onde a ausência, longe de ser um vazio, se transforma numa forma de presença.

 

 

 

Mercedes Cerón

Lisboa, Abril 2026

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